Arte com estilo
O grafite brasileiro ganha o mundo nas mãos de talentosos artistas

Durante muito tempo, o grafite foi discriminado e, até mesmo, taxado como pichação. Mas o dom de embelezar espaços com desenhos coloridos e repletos de significados consolidou-se como arte nas mãos de talentosos grafiteiros. Essa manifestação cultural ganhou o mundo por meio de artistas como OSGÊMEOS, que assinaram, no final do ano passado, a exposição “Vertigem”, instalada no Museu de Arte Brasileira da FAAP, em São Paulo.

Pioneiros no cenário nacional, os irmãos idênticos, nascidos em 1974, sabem como ninguém imprimir a técnica em instalações, pinturas, esculturas e objetos sonoros. O sensível olhar dos paulistanos sobre o cotidiano brasileiro deu o tom à exposição, buscando influências nos centros urbanos e no folclore nordestino, em imagens surrealistas.

Figuras de pele amarelada, com roupas coloridas e em paisagens inusitadas, quase poéticas, invadiram o MAB. Ao todo, 56.550 pessoas visitaram o espaço entre os meses de outubro e dezembro para conferir o surpreendente trabalho feito a quatro mãos. A mostra também foi levada ao Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.

Os gêmeos Gustavo e Otávio Pandolfo iniciaram sua trajetória artística na década de 1980, exibindo o grafite nos muros de São Paulo. A vida na metrópole é constantemente retratada nas figuras, que revelam a essência da miscelânea cultural do povo brasileiro. As telas lembram retratos e mesclam os personagens a um ambiente de fantasia, com carros, barcos e bonecos gigantes incorporados à paisagem.

Nos anos 90, a repercussão do trabalho d’OSGÊMEOS deu um salto com a participação da dupla em exposições coletivas. No final da década, suas criações ganharam o cenário internacional da arte urbana contemporânea, levadas para o Reino Unido, França, Alemanha, Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Holanda, Cuba, Japão, China, Austrália e Estados Unidos.

Uma das maiores provas do reconhecimento do talento dos irmãos deu-se em 2007, quando foram convidados a pintar o castelo histórico de Kelburn, na Escócia. O próximo passo foi colorir a famosa fachada do prédio da galeria Tate Modern, de Londres. Nova York foi o destino dos artistas em 2009, que deixaram suas cores no grande muro do cruzamento das streets Bowery e Houston. O resultado foi elogiado pela crítica do The New York Times.

 

AS CORES DO HIP HOP

O grafite é definido como uma expressão artística atrelada à tribo do Hip Hop, que utiliza espaços inusitados para criações com tintas em spray. Integra a chamada arte urbana, em que são aproveitados locais públicos para a manifestação de críticas sociais e políticas por meio de pinturas, ou simplesmente a visão do artista sobre a realidade.

A linguagem do grafite é singular e atemporal. Na década de 1960, algumas criações se espalharam pela Itália e França. Anos depois, os muros e vagões de metrô dos Estados Unidos passaram a exibir desenhos multicoloridos, reforçando a propagação da técnica. As linhas do grafite evoluem ao longo do tempo. Primeiro, foram os Tags (assinatura), depois os Throw-ups (letra contornada com cor de preenchimento). E em seguida vieram os Pieces (trabalhos mais elaborados). As pinturas tridimensionais começaram a ser desenvolvidas no final dos anos 80, como um estilo mais sofisticado.

No Brasil, Estados Unidos e países da Europa, os grafiteiros já encontraram seu lugar. O grafite acompanha o crescimento das cidades e sua evolução, manifestando-se como reflexo da cultura global. Nas cidades do interior, a arte é também reconhecida. O grafiteiro Pecks é um dos precursores em São José do Rio Preto e desde 1994 dissemina a arte.

Wanderson José Sereni, que assina como Pecks, começou a grafitar por curiosidade, mas logo o talento veio à tona. Em 1997, ao lado de outros membros do grupo Arte Sem Limites, chegou a trazer OSGÊMEOS para uma festa no local onde funcionava o Roller Dance. Atualmente, Pecks realiza também trabalhos comerciais, como pintura de fachadas de lojas. Mas lembra: “O verdadeiro grafite é aquele que se faz nas ruas”. O grafiteiro já viajou a trabalho para a Alemanha, Portugal e Itália, onde permaneceu um ano. Todos os anos, no final de março, Pecks promove em São José do Rio Preto a Semana do Hip Hop, que chega à sua 5ª edição como um dos espaços onde o grafite é uma das principais atrações.